Vieiros - Mércores, 29 - XI - 2000

A escravitude das mulheres manten-se no Brasil

O Brasil tornou-se o maior "exportador" de mulheres escravas da América do Sul -onde se incluem prostitutas e reféns de quadrilhas internacionais- mas o Governo federal desconhece a extensão do problema.

A falta de controle sobre esta modalidade de tráfico levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a auxiliar o país na execução de um projecto para fortalecer a luta contra o tráfico de seres humanos, que será implantado em breve.

Na segunda semana de Dezembro, o ministro da Justiça, José Gregori, assina na Itália a Convenção da ONU contra o Crime Organizado Transnacional.

Pelos cálculos da ONU e da Federação Internacional Helsinque de Direitos Humanos, 75 mil brasileiras estarão a ser obrigadas a prostituir-se só nos países da União Europeia, o que representa quinze por cento de todas as "escravas" do continente.

Segundo a mesma projecção, cerca de 95% destas mulheres estão com passaportes retidos, "devem" a aliciadores e vivem em condições humilhantes.

O ministro da Justiça, José Gregori, que abriu esta terça-feira o I Seminário Internacional contra o Tráfico de Seres Humanos, em Brasília, disse que não há números oficiais do Governo brasileiro sobre este tipo de crime. Para ele, as projecções dos organismos internacionais não são precisas.

A única informação que o Governo brasileiro dispõe é de uma "classificação" dos Estados exportadores de mulheres. Em primeiro lugar está Goiás. Rio de Janeiro aparece em segundo e São Paulo é o terceiro exportador de prostitutas.

Outra projecção das Nações Unidas mostra que o tráfico de seres humanos só perde para as drogas e as armas. Este terceiro mercado ilícito do mundo movimentará algo em torno de sete biliões de dólares por ano.

Os países ligados à ONU estão a intensificar cada vez mais a troca de informações para combater o problema. No Brasil, os dados sobre prostituição estão a ser catalogados pelo Sistema Integrado de Informações do Mercosul e pela Interpol.

A secretária Nacional de Justiça, Elizabeth Süssekind, disse que o Governo já começou a treinar polícias para combater o tráfico de mulheres, mas pediu mais envolvimento da sociedade civil.

Elizabeth disse que muitas meninas são "transportadas" por caminhoneiros do Nordeste, rumo à Região Sudeste, onde são prostituídas, ou seguem rumo ao exterior.

Segundo o subsecretário-geral das Nações Unidas, Pino Arlacchi, "há notícias" de que grupos ligados ao tráfico de drogas estão a substituir este "mercado" por tráfico de seres humanos, por envolver menos riscos.

Algumas rotas do tráfico de mulheres e crianças começam a ser traçadas pela Polícia Federal. No Pará, alemães e holandeses estão a exportar pessoas pelo Suriname.

As mulheres que os traficantes consideram de melhor aparência são enviadas para a Europa e as restantes ficam a prostituir-se no Suriname, país que também é rota internacional do tráfico de drogas.