Diário de Notícias - 17 de Março de 2001

Estados Unidos condenam Sudão
por permitir escravatura

Manuel Ricardo Ferreira - Correspondente em Nova Iorque

O Congresso dos Estados Unidos vai agora aprovar legislação para condenar o Governo do Sudão pela violação sistemática dos Direitos Humanos e, especialmente, por permitir ainda a prática da escravatura.

Para esta decisão dos legisladores americanos contribuiu também uma campanha desenvolvida por um grupo denominado Americanos de Boston contra a Escravatura e, principalmente, foi muito importante o depoimento de Francis Bok, um escravo sudanês fugido da sua terra.

Segundo um relatório elaborado pelo Departamento de Estado, a escravatura e o tráfico de seres humanos continuam a ser um dos principais problemas da Somália, onde a guerra civil, que se prolonga há já dezoito anos entre os muçulmanos do Norte e os cristãos e animistas do Sul, já provocou mais de dois milhões de mortos e mais de quatro milhões de deslocados.

Bok, que tem actualmente 21 anos e é membro da tribo sulista Dinko, confessou aos congressistas ter sido raptado quando tinha sete anos, juntamente com outras crianças, de um mercado no Sul do Sudão por indivíduos pertencentes a milícias, e ter sido obrigado a caminhar até chegar ao Norte, onde foi vendido.

Durante essa longa marcha, uma rapariga que chorou foi assassinada a tiro e um rapaz que protestou ficou sem um pé. Bok diz ter sido comprado por Jim Abdullah, que o espancava. Chamava-lhe "abeed", o que significa "escravo negro". Quando Bok conseguiu aprender árabe suficiente perguntou-lhe qual a razão que o levava a bater-lhe e este respondeu-lhe que batia porque ele era "um animal".

Francis Bok contou também aos congressistas norte-americanos que apenas conseguiu fugir, dez anos mais tarde, para a cidade de Mutare, onde relatou toda a sua história numa esquadra de polícia. Foi então de novo preso e vendido. Voltou a fugir, mais tarde, desta vez para Cartum, e depois para um campo de refugiados no Sul.

Após a fuga conseguiu um visto para o Egipto e as Nações Unidas patrocinaram a sua viagem para os Estados Unidos. Bok afirma que, agora, vai usar a sua liberdade para tentar ajudar a libertar o seu "povo que ainda está escravizado e não tem voz".