Folha de São Paulo, 18 - III - 2001

Órgão de destruição de armas químicas
está sem verbas para funcionar

da Reuters, em Haia (Holanda)

A organização independente criada para destruir os arsenais de armas químicas existentes no planeta afirmou esta semana que está sem dinheiro para executar a tarefa.

"Estamos em uma séria crise financeira", disse Jose Bustani, diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW, sigla em inglês).

O órgão, que funciona em cooperação com a ONU (Organização das Nações Unidas), foi fundado em 1997 junto com a assinatura da Convenção sobre Armas Químicas. Seu orçamento anual é de US$ 55 milhões, mas, do modo como foi estruturado, os países-membros não vêm pagando as suas contribuições.

"Não penso que nossas inacreditáveis conquistas devam ser colocadas em risco por uma crise financeira, principalmente quando o dinheiro envolvido é irrisório", afirmou Bustani.

A OPCW já ajudou a eliminar sete por cento dos agentes químicos do mundo e quinze por cento das munições químicas. Já conduziu 938 inspeções, e conta com países como EUA, Rússia, Irã e China entre seus 143 membros.

"Mas o sistema de financiamento da organização não tem funcionado", disse Bustani. "O orçamento é fictício. Precisamos que os Estados-membros reestruturem o orçamento. Se não o fizerem, nós simplesmente não poderemos operar."

Um dos principais trabalhos da OPCW é a destruição do imenso arsenal de armas químicas da Rússia - o maior do mundo, com cerca de quarenta mil toneladas. Bustani disse acreditar que os russos começarão a se desfazer desse material ainda este ano. Mas isso deixaria a organização num aperto financeiro ainda maior.

"Se a Rússia começasse a destruir suas armas químicas agora, não sei como conseguiríamos pagar por isso", declarou. "Eu teria de sacrificar nossas outras atividades."

Segundo ele, o custo total da eliminação do arsenal russo, herdado da União Soviética, é de entre US$ oito bilhões e US$ dez bilhões, soma que a Rússia não seria capaz de oferecer sozinha.

"A Rússia está agora a ponto de iniciar um programa de destruição confiável", observou o diretor da OPCW. "Precisamos de mais boa vontade por parte da União Européia e dos EUA para ajudarem a Rússia financeiramente. Caso contrário, ela não terá condição de cumprir seus compromissos (assumidos no Tratado sobre eliminação desse tipo de armamentos)."