Diário de Notícias - 27 de Junho de 2001
"Festa do corno" em tribunal
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Uma mulher de Penafiel, acusada do pecado da infidelidade, viu a privacidade violada "como num filme de terror", segundo um rito anacrónico. Treze pessoas sentam-se hoje no banco dos réus Francisco Mangas De súbito, quase na despedida do século e do milénio, a "festa do corno" irrompe do fundo dos tempos na aldeia de S. Julião, concelho de Penafiel. Uma mulher, que meses antes se havia separado do marido, é acusada de ter um amante e vê a sua casa cercada por homens que, num rito anacrónico, desejam repor a honra. E aconteceram insultos, agressões físicas, gritos de dor na noite escura. O estranho caso de S. Julião, freguesia de Lagares, que ocorreu em Outubro de 1996, chega hoje aos tribunais. Treze arguidos são acusados de intromissão em casa alheia, danos materiais, morais, corporais e difamação. Todos eles são familiares de Leontina Monteiro, a principal queixosa neste processo. Após a separação, o desassossego começou a rondar a casa de Leontina Monteiro. "Eles vinham de noite a soprar em cornos, tubos de plástico e funis. Eu chamava a GNR, mas quando a Guarda chegava eles já não se encontravam no local", diz a queixosa. Na noite de 21 de Outubro de 1996, no entanto, a "festa do corno" virou "festa da porrada". Além dos inusitados instrumentos de sopro, "eles trouxeram barras de ferro, chicotes e mocas". E "invadiram" a casa, "agrediram" Leontina e o seu filho menor, de sete anos. Aos gritos das vítimas acudiram os filhos mais velhos de Leontina, um irmão e um cunhado, que estavam numa casa próxima a ver na televisão uma partida de futebol entre o Porto e o Boavista. Foram também "agredidos". O filho mais novo, diz a queixosa, a partir daí sempre que ouve ruídos de noite pergunta transido: "São eles, mãe?!" Leontina Moreira lembra aquela noite como "um filme de terror, mas com as personagens a apanhar porrada ao vivo. Queriam rasgar-me a roupa e levar-me nua para o meio do caminho". Por detrás da inusitada "festa do corno" - frequente em tempos antigos nesta e noutras aldeias da redondezas - estavam o seu tio (irmão da sua mãe), os filhos e genros. Os mais velhos da aldeia guardam lembrança remota desse rito em nome da fidelidade. As casas da mulher infiel, ou de viúva casada de fresco, eram cercadas pelos homens da aldeia, que anunciavam aos sete ventos o "pecado" soprando em cornos. José Joaquim Leal, pároco de Lagares há 26 anos, não tem memória de "acção espúria" como esta, que agora mancha a dignidade da freguesia onde nasceram homens ilustres como Cunha Rodrigues, antigo procurador-geral da República, e Barbosa de Melo, ex-presidente da Assembleia da República. "É manifestação primária", sublinha o pároco, "e não foi para salvaguardar valores. Não estamos em tempo de brincar ferindo a dignidade dos outros". Aliás, informa José Leal, na freguesia há pessoas divorciadas e "amancebadas" e nunca ninguém reagiu de forma negativa. O pároco de Lagares conhece Leontina Moreira. "É uma rapariga simples, que procura ganhar a vida honestamente" como modista. Quando o marido morreu, há dois anos, "mandou celebrar missas pela sua alma". Na opinião do sacerdote, quem mais sofreu neste "filme de terror" foram os filhos de Leontina. "Andavam na catequese, eu notava nessas crianças um certo complexo: estavam sempre tristes". O filho mais novo, diz-nos Leontina Moreira, continua ainda hoje a receber apoio psiquiátrico. |