Folha de São Paulo, 12 - VIII - 2001

Empresas são acusadas de ameaçar sindicalistas na Colômbia

da Reuters, em Bogotá

Horas depois de terem atirado contra Isidoro Segundo Gil, paramilitares invadiram o escritório de um sindicato que representa funcionários de uma engarrafadora da Coca-Cola no norte da Colômbia e colocaram fogo no local, disseram testemunhas.

Depois do assassinato e do incêndio, os paramilitares convocaram uma reunião dos funcionários da empresa, localizada na cidade de Carepa, e mandaram que eles abandonassem o sindicato naquela tarde. Os que não o fizessem seriam mortos a tiros.

A morte de Gil é o episódio mais assustador dos vários descritos em uma ação judicial que corre em uma corte de Miami (EUA). As denúncias de abusos, que teriam sido cometidos pelos dirigentes da fábrica, deixaram a Coca-Cola em maus lençóis.

O processo afirma que gerentes de fábricas de toda a Colômbia usaram os paramilitares para acabar com os sindicatos por meio de ameaças, sequestros e assassinatos.

Nos últimos anos, grandes partes do país latino-americano viram-se dominadas pelos paramilitares, milícias ilegais de direita fundadas por empresários e rancheiros cansados das chantagens e ameaças feitas pelas guerrilhas de esquerda.

Gil, secretário-geral do sindicato local na fábrica dirigida pela empresa Bebidas e Alimentos de Uraba, foi assassinado no dia 5 de dezembro de 1996.

Segundo as autoridades que investigam o caso, dois homens montados em uma moto chegaram perto dele na porta da fábrica.

Perguntaram seu nome e depois atiraram: quatro vezes contra a cabeça e seis vezes contra o peito e os testículos. O corpo de Gil ficou estendido no chão, perto de uma grande placa da Coca-Cola.

No final de dezembro, o sindicato recebeu cartas de desligamento de 43 de seus membros em Carepa. Outros trabalhadores fugiram da cidade e alguns ainda continuam escondidos.

Os "paras", como são chamados, costumam considerar os sindicatos linhas de frente das guerrilhas.

Ao menos 112 sindicalistas colombianos foram mortos em 2000, segundo a Anistia Internacional. Depois de 37 anos de guerra civil, o país continua envolto na violência. Todo ano, são mortas, em homicídios comuns ou em conflitos armados, 25 mil pessoas.

O proprietário da fábrica em Careba, um cidadão norte-americano, foi apontado como réu na ação norte-americana, ao lado da maior engarrafadora da Coca-Cola na Colômbia, a Panamerican Beverages, Inc. (Panamco). O caso foi apresentado pelo Fundo Internacional dos Direitos dos Trabalhadores em nome de Gil e do sindicato.

O processo, a que a Reuters teve acesso, continua correndo em segredo de Justiça.