Diário de Notícias - 14 de Agosto de 2001
Badajoz: matança há 65 anos
Em duas semanas, foram executadas dez mil pessoas,
numa chacina enlouquecida que deu o tom à Guerra Civil espanhola
Os que tentavam fugir para Portugal eram logo entregues aos franquistas
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Mário Ventura. Correspondente para Espanha. No dia 14 de Agosto de 1936 - completam-se hoje 65 anos - começavam os fuzilamentos na praça de touros de Badajoz, num clima de embriaguez assassina que se prolongaria por duas semanas. A partir desse dia, "industrializava-se", num cenário de crueldades, a chacina que começara a desenhar-se por toda a Extremadura. A organização da morte em massa obrigava a maiores espaços, e a praça de touros cumpria a função que, décadas mais tarde, decorreria em estádios de futebol. Na tarde de 14 de Agosto, o tenente-coronel Juan Yagüe Blanco, que comandara o cerco a Badajoz, ordenava o encerramento de centenas de presos na arena, na sua maioria civis, pois os combatentes leais à República haviam sido quase todos mortos nas ruas, defendendo a cidade. O último acto de resistência decorrera na catedral, quando já tudo estava perdido, e nem a invocação religiosa da cruzada franquista impediu o extermínio dos soldados republicanos nas escadas do altar-mor. No dia 14, entre o entardecer e a noite avançada, os vencidos foram fuzilados às centenas na arena, com metralhadoras nas barreiras, enquanto no exterior uma longa fila de milicianos e civis, jovens e velhos, aguardava a vez de entrar no local do massacre. Os soldados mouros restolhavam por entre os mortos, antes de os retirarem para o cemitério, onde seriam queimados, e entretanto cumpriam o bárbaro ritual de lhes cortarem os órgãos genitais, perante a indiferença da tropa falangista e a curiosidade de militares alemães, observadores enviados por Hitler, que fotografavam aquele desconhecido requinte de malvadez. Como todas as tropas arregimentadas à força para terra estranha, os mouros descarregavam a crueldade sobre as vítimas, criando uma lenda de terror que por dois anos arrastou Espanha. Entre actos de fúria demencial e rituais selvagens, a morte transforma-se em espectáculo, e a partir do dia 16 distribuem-se convites aos simpatizantes dos rebeldes - quase todos franquistas de hora recente - para assistirem às execuções nas bancadas da praça, e daí aplaudirem o terror, os vãos apelos à clemência, e até as posições grotescas em que homens, mulheres e crianças vão ficando na arena. As vítimas não escasseiam, porque entretanto centenas de milicianos e civis, quase todos camponeses, são trazidos de outras localidades da província para morrerem em Badajoz. Nesses dias, só na praça de touros, foram fuziladas cerca de cinco mil pessoas - metade de todas as mortes durante o assalto. Pela cidade, as execuções não param. Os mouros batem às portas e matam quem aparece. Guardas de assalto e elementos das forças de segurança, fiéis aos republicanos, eram fuzilados junto ao muro do cemitério e enterrados numa vala comum. Não houve prisioneiros, e não se julgou ou interrogou quem quer que fosse. Cercada pelas tropas de Yagüe, a população só poderia tentar a fuga pela fronteira portuguesa. Foi o que fizeram, nessa semana, centenas de milicianos, funcionários e responsáveis políticos. Mas a esperança não durou. À excepção de alguns fugitivos - escondidos por particulares -, a maioria dos perseguidos acabou vítima de um comportamento que constitui uma das páginas mais negras da própria História portuguesa: presos pela polícia política de Salazar, que logo os entregava aos franquistas, quando não lhes abria as fronteiras para que os fossem buscar. Para a maior parte, a curta viagem de regresso acabou na praça de touros de Badajoz. |