Diário de Notícias - 25 de Setembro de 2001

Presidente pára luta à SIDA

Na África do Sul, investigadores ameaçam abandonar estudos sobre a doença. Uma atitude que vem na sequência do descrédito que Mbeki deu ao relatório do Conselho de Pesquisa Médica.

Cláudia Marcelos, com Lusa e AFP

A atitude do Presidente da África do Sul pode levar a que os investigadores abandonem por completo os estudos sobre a SIDA naquele país. Uma decisão extremamente polémica e que vem na sequência de instruções de Thabo Mbeki ao exigir revisão dos gastos públicos. O presidente alega que o impacto da doença é menor do que o anunciado, baseado em estatísticas ultrapassadas.

Face às instruções do governante, muitos dos pesquisadores envolvidos na procura de uma vacina contra a SIDA não deverão renovar os contratos com o Conselho de Pesquisa Médica (CPM), que recentemente elaborou um relatório considerado pelos especialistas como bastante preocupante, o qual foi colocado de lado pelo presidente.

"É lamentável que um Governo, que deveria liderar a luta contra a epidemia da SIDA e pretende impulsionar o Plano do Milénio para a Recuperação de África mostre tanto desprezo pelas conclusões de um grupo de pesquisa independente", afirmou um dos autores do estudo.

Segundo a associação de imprensa sul-africana News24, a directiva do presidente baseou-se em estatísticas do site da Organização Mundial de Saúde na Internet relativas a 1995, que sofreram um agravamento dramático.

No estudo, os investigadores citavam estatísticas de diversas instituições oficiais que apontam para a existência, no ano passado, de 5,3 milhões de seropositivos na África do Sul e 236 mil doentes com SIDA.

Afirmavam ainda que esta doença matou, só em 2000, 139 mil pessoas. Este número representa 26 por cento do total de mortes naquele país.

O relatório sublinha ainda que 64 mil bebés nasceram nesse ano infectados com HIV por via uterina e prevê que o número de mortes de crianças com menos de cinco anos irá triplicar a curto prazo.

A News24 adiantou que o CPM decidiu não tornar público o relatório por pressão governamental, após alguns departamentos terem questionado a metodologia seguida na sua preparação.

Por seu lado, o Governo sul-africano também tem sido pressionado. Em conferência de imprensa, a confederação sindical COSATU, as igrejas anglicana e católica e a associação de ajuda aos doentes com SIDA pediram ao Governo para divulgar o mais rápido possível este relatório e declarar, de uma vez por todas, "urgência nacional" no combate à doença.


Seis milhões de mortos até 2010

13 por cento dos sul-africanos podem morrer na próxima década, diz o Conselho de Pesquisa Médica.

Cerca de 13 por cento da população sul-africana deverá morrer até 2010. Quem o afirma é o Conselho de Pesquisa Médica (CPM) e o diagnóstico é claro: SIDA.

Segundo um relatório desta organização, caso não se apliquem medidas eficazes de tratamento e de prevenção da doença, até 2010 terão morrido seis milhões de pessoas (num total previsto de 47,5 milhões).

De acordo com o relatório da CPM, o número de óbitos de crianças com idades entre um e cinco anos triplicará até 2010. As conclusões do documento indicam também que 40 por cento dos que morrem com SIDA têm idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos, segundo referem as estatísticas de exames pré-natal anuais efectuados pelo Ministério da Saúde e seguradoras.

Os números avançados pelo CPM contradizem claramente a posição do presidente da África do Sul Thabo Mbeki, quando afirma que "a SIDA está longe de ser uma das principais causas de morte no seu país".

Mbeki declara que o "HIV não é a causa principal mas as condições de pobreza em que vive a população".

O mesmo não pensa a Treatment Action Campaign (TAC), uma associação sul-africana que ajuda os doentes com SIDA, e que acusa o Governo de estar a matar anualmente cerca de 20 mil crianças que nascem infectadas.

Ao não administrar nas gestantes a Nevirapina, um medicamento antiviral, o Governo está a permitir que as mães contagiem os filhos, considera aquela instituição.

A associação refere que o Governo devia distribuir medicamentos antivirais contra a SIDA nos hospitais públicos e empreender uma política "clara" de prevenção da transmissão de mãe para filho da doença.

Lembra, ainda, que a multinacional Boehringer Ingelheim se ofereceu há um ano para administrar gratuitamente a Nevirapina nas grávidas dos países em vias de desenvolvimento.