Diário de Notícias - Domingo 14 de Outubro de 2001

FIJ condena perseguição de jornalistas

FERNANDO DE SOUSA. Delegado em Bruxelas.

A Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) exigiu a libertação de repórteres detidos devido ao conflito do Afeganistão e mostra-se preocupada com os pedidos da Administração americana de cuidados especiais no tratamento de material da estação de televisão Al-Jazeera do Qatar.

Num comunicado emitido em Bruxelas, a FIJ considerou que "mais uma vez, os jornalistas estão a ser perseguidos por todas as partes num conflito que exige profissionalismo e independência, não propaganda e censura".

Numa referência ao caso do repórter Michel Peyrard, da revista francesa Paris Match, a FIJ rejeita as acusações de espionagem que sobre ele pendem e declara com firmeza: "Este é um exemplo de entusiasmo jornalístico, não de espionagem".

Peyrard foi preso pelos talibãs, a 9 de Outubro, quando entrou no Afeganistão vestido de mulher, e encontra-se detido em Jalalabad. Os seus dois guias também foram presos.

Os talibãs já tinham detido a jornalista britânica do Sunday Express, Yvonne Ridley, mas acabaram por libertá-la.

Além de Peyrard, a FIJ também exige a libertação de três jornalistas paquistaneses detidos em Peshawar, no Paquistão, por terem entrado no Vale de Tirah de acesso interdito.

Com eles também foram detidos dois jornalistas do canal francês LCI, mas mais tarde foram libertados. Todos foram acusados de serem "espiões americanos".

A FIJ preocupa-se com a segurança dos repórteres. Cita o caso de correspondentes estrangeiros atacados e apedrejados pela multidão em Islamabad e de dois fotógrafos ao serviço da Agência Gamma e do New York Times espancados pela polícia em Quetta.

Ao mesmo tempo, é condenada a exclusão de jornalistas da Faixa de Gaza para impedir a cobertura dos protestos contra a guerra e exigido às autoridades paquistanesas que permitam que os correspondentes em Quetta saiam dos hotéis. Num recente confronto, os apoiantes dos talibãs atiraram pedras para o hotel e tentaram incendiá-lo.

Ao manifestar preocupação com as recomendações americanas de prudência no uso de material da televisão Al-Jazeera, a FIJ refere notícias de grupos defensores da liberdade de informação de que o emir do Qatar, o sheikh Hamid bin Khalifa al-Thaniof, recebeu um pedido do Departamento de Estado, em Washington, para que usasse a sua influência no sentido de moderar a cobertura da estação.

O Departamento de Estado não apreciou a transmissão de um vídeo pré-gravado com uma mensagem de Ussama Ben Laden, acusado pelos EUA de ser o principal responsável pelos ataques de 11 de Setembro, nem que tenha dado tempo de antena a peritos adversários das acções americanas.

A FIJ faz notar que aquela estação de televisão é reconhecida em todo o mundo árabe e "contribuiu para gerar novos níveis de profissionalismo na comunicação social árabe".

A organização salienta que a Al-Jazeera também "tem sido usada por dirigentes ocidentais, nomeadamente Tony Blair, para fazer passar os seus pontos de vista na batalha da propaganda".