Diário de Notícias - Segunda Feira 7 de Outubro de 2002

30 mil deficientes por ano

ISALTINA PADRÃO

Em Portugal, registam-se todos os anos 30 mil novos deficientes resultantes de acidentes de trabalho.

Este número representa 15 por cento dos 200 mil trabalhadores que, segundo o Departamento de Estatística do Trabalho, Emprego e Formação Profissional (DETEFP), sofrem, anualmente, acidentes no desempenho da sua profissão.

"São factos que gostaríamos de contrariar, porque estes números podem diminuir se for reforçada a segurança no trabalho", disse ao DN a psicóloga clínica Margarida Carvalho da Silva, membro da Associação Nacional dos Deficientes Sinistrados no Trabalho (ANDST).

Também para o presidente da delegação de Lisboa daquela associação, "os acidentes e as doenças de trabalho não acontecem por acaso".

O problema, diz José Subtil, é que "não há formação nenhuma na área da prevenção". E não poupa críticas às seguradoras, que acusa de terem uma quota-parte das responsabilidades, uma vez que se limitam a fazer o seguro, desresponsabilizando-se do resto. Isto mesmo sabendo que algumas empresas são de alto risco, refere, considerando inaceitável a não existência de uma inspecção prévia para avaliar as condições de segurança.

Em relação aos milhares de pessoas que, por terem sofrido um acidente no desempenho das suas funções, ficam incapacitadas para o resto da vida, Margarida Carvalho da Silva diz que esses números representam muitas famílias que se desmoronam.

E sustenta: "De repente, o eficiente que, geralmente, é o alicerce familiar (o homem), torna-se deficiente. Como se não bastasse já o sinistrado sentir-se um inútil, para além do problema físico, há todo um processo burocrático que dificulta a resolução da situação."

Após o acidente, há um ciclo a percorrer por forma a que o sinistrado volte a colocar a sua vida de pé. "Como é que uma pessoa pode erguer-se, se está constantemente a ser desajudada por quem mais poderia e deveria ajudar?", questiona Margarida Carvalho da Silva.

Os obstáculos, segundo a psicóloga, começam logo a ser levantados pelas entidades patronais, que delegam responsabilidades nas companhias de seguros. "Estas, por sua vez, encaram as pessoas como números, quando elas mais precisam de ser vistas como seres humanos." A morosidade dos tribunais constitui, de acordo com a psicóloga, outro dos entraves à reintegração destas pessoas.

Como se tudo isto não fosse já suficientemente mau, a especialista lamenta que, por vezes, o desespero das famílias seja ainda agravado por negligência médica e pouco acompanhamento clínico.


CRÍTICAS

NÚMEROS. A Inspecção-Geral do Trabalho (IGT) registou, até ao final do mês de Setembro, 151 acidentes de trabalho mortais. É no sector da construção civil que se verifica o maior número de vítimas mortais (73), ultrapassando a soma das detectadas nos restantes 21 sectores analisados (ver gráfico). A queda em altura e o esmagamento foram as principais causas de morte dos trabalhadores.

Mas a realidade poderá ter contornos ainda mais sombrios. Como declarou José Subtil ao DN, "estes números não correspondem à realidade, na medida em que só são contabilizados os acidentes mortais registados no local de trabalho. Portanto, se alguém cai, parte a coluna, vai para o hospital e, passados dois dias, morre, já não é considerado vítima de acidente de trabalho. Fica fora das estatísticas".

DESEMPREGO. Sobre a teoria de que os acidentes de trabalho estão a diminuir, diz Subtil: "Se as empresas de indústria pesada, que empregavam milhares de trabalhadores, desapareceram, é natural que os acidentes baixem. Os números desceram porque há menos trabalhadores."

Quanto à construção civil, não duvida de que as vítimas mortais têm aumentado, devido às grandes obras públicas em que os trabalhadores são contratados sem conhecimentos sobre regras de segurança.

PREVENÇÃO. Como medidas preventivas para evitar a ocorrência de acidentes no local de trabalho, José Subtil só divisa duas: apostar na formação dos trabalhadores em matéria de segurança e investir na realização de inspecções das condições de trabalho.