Folha de São Paulo, 9 - XI - 2002

Surto de leishmaniose devasta sul do Sudão

da Reuters, em Nairóbi (Quênia)

Um grave surto de leishmaniose visceral está devastando comunidades do sul do Sudão já atingidas por desnutrição e guerra, informou hoje o grupo Médicos sem Fronteiras (MSF).

A leishmaniose visceral, também conhecida como calazar, é transmitida pelo mosquito-pólvora e ataca pessoas debilitadas pela fome e fadiga. A doença afeta o fígado e baço, causando febre e severa perda de peso e inchaço do baço. Caso não seja tratada, a enfermidade pode ser fatal.

"Esse é um panorama devastador, com tantas pessoas chegando ao hospital todos os dias mais mortas do que vivas", disse o diretor operacional dos MSF, José Antonio Bastos, de acordo com um comunicado do grupo.

"O estado desses pacientes é espantoso. Eles são carregados em macas durante dias para chegar ao hospital. Estão pálidos, magros e extremamente anêmicos".

A doença é endêmica em partes dos países do leste africano, como Sudão, Etiópia e Somália, e normalmente atinge picos nessa época do ano. Mas a força do novo surto é excepcional e revela um grande aumento em comparação ao mesmo período de anos recentes, segundo os MSF.

"Enquanto prosseguem as negociações de paz, grandes regiões do sul do Sudão ainda são inacessíveis às organizações de ajuda, e doenças como a leishmaniose visceral continuam a matar milhares de pessoas", informaram os MSF.

O Governo do Sudão e os rebeldes do sul estão em negociações de paz no Quênia, para dar um fim à guerra que matou cerca de dois milhões de pessoas desde o início do conflito, em 1983.