Folha de São Paulo, 13 - XI - 2002

Refugiados tchetchenos
pedem para voltar ao Cazaquistão

da Reuters, em Nazran (Rússia)

Milhares de refugiados tchetchenos abrigados em campos próximos à república separatista russa pediram hoje ao Cazaquistão o direito de regressar a esse país, no qual o ditador Josef Stálin exilou toda a população tchetchena durante uma década.

"Para o povo tchetcheno, o Cazaquistão é como uma segunda pátria", disseram os refugiados em carta aberta ao presidente cazaque, Nursultan Nazarbayev.

"Decidimos pedir ao senhor que nos ajude a conceder asilo aos refugiados tchetchenos na República do Cazaquistão", dizia o texto, assinado pela Unidade Popular, grupo que reúne boa parte dos 150 mil refugiados da região.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Stálin acusou os tchetchenos de ajudar os invasores alemães e os deportou para o Cazaquistão, então parte da União Soviética. Quase metade dos tchetchenos daquela época morreu durante ou imediatamente após a árdua viagem.

Zina Zaurbekova, 60, que vive em uma tenda com três filhos, disse que prefere voltar ao exílio nas estepes cazaques a permanecer no campo de refugiados. Um irmão seu permaneceu no Cazaquistão após o fim das restrições de Stálin, em 1953, e só voltou à república natal após o colapso da União Soviética.

"Eles vieram para a Tchetchênia em 1992, mas quando a guerra do separatismo tchetcheno contra Moscou começou eles voltaram a Almaty Cazaquistão. Estão muito bem lá, segundo ele, muito melhor que aqui. É claro, lá não há soldados russos", disse a mulher.

A presença militar russa na Tchetchênia se intensificou desde que rebeldes tchetchenos tomaram mais de cem reféns em um teatro de Moscou no mês passado. O incidente terminou em tragédia, e desde então o Kremlin se recusa a dialogar com os separatistas.

Hoje soldados russos invadiram todas as casas de cinco aldeias em busca de guerrilheiros. Segundo a imprensa, sete pessoas morreram e trinta foram presas.

Na véspera, um helicóptero militar Mi-24 caiu, sem provocar vítimas. Os russos afirmaram que foi um acidente, mas os rebeldes garantem que derrubaram o aparelho. É o 41º helicóptero russo que cai na Tchetchênia desde 1999.