Folha de São Paulo, 19 - XI - 2002

Justiça atribui morte de "soldado-cobaia"
ao Governo britânico

da Reuters, em Londres

Um soldado britânico vítima de um teste com o gás sarin, que afeta o sistema nervoso, morreu "nas mãos do Estado", segundo sentença emitida hoje por um juiz, que determinou a abertura de uma nova investigação quase cinquenta anos após o fato.

Ronald Maddison, um engenheiro de vinte anos da Força Aérea, morreu no laboratório de armas químicas e biológicas de Porton Down em 1953, depois de receber um emplasto de duzentos miligramas do sarin na pele.

O primeiro inquérito, conduzido em segredo, determinou que o militar morreu por uma "infelicidade", por causa de uma asfixia dos brônquios.

A sentença de hoje abre a possibilidade de que outros casos semelhantes sejam reabertos. O Governo reconhece ter feito experimentos com gases venenosos em cerca de três mil soldados até 1989.

"É um caso em que a morte ocorreu com um membro das Forças Armadas nas mãos do Estado, durante experiências relativas ao gás de nervos", disse o juiz, lorde Woolf, na Suprema Corte.

A família de Maddison, segundo ele, foi mantida "em total ignorância" sobre a situação de seu parente. O juiz sugeriu que o inquérito pode ter sido mantido em sigilo para evitar punições aos responsáveis, e que isso é particularmente condenável num caso em que o Governo tenha sido responsável pela morte.

Advogados e parentes das vítimas das experiências disseram que os militares foram induzidos a aceitar os testes, sem saber do risco de vida que corriam.

Muitos ex-militares estão pedindo indenizações por isso, mas as Forças Armadas dizem que não há provas de que eles sofreram problemas de saúde por causa dos testes ou que tenham sido induzidos a dar seu consentimento.

A polícia já iniciou uma investigação sobre o caso e pediu à população que entregue provas da prática de aliciar voluntários, como os cartazes que solicitavam cobaias para as experiências sobre resfriados na década de 1950.

Após a sentença de hoje, o Ministério da Defesa disse que vai continuar ajudando nas investigações.