Folha de São Paulo, 3 - I - 2004
Conflito colombiano
gera êxodo ao Equador
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FABIANO MAISONNAVE, enviado especial a Quito Financiada pelo dinheiro americano via Plano Colômbia, a intensificação do sangrento conflito interno colombiano pelo Governo do presidente Álvaro Uribe provocou no ano passado uma verdadeira invasão de refugiados ao pobre vizinho Equador. Tentando deixar para trás os traumas da guerra, os colombianos encontram, na maioria das vezes, preconceito e falta de oportunidades. Segundo dados oficiais do Governo equatoriano, entraram (até novembro de 2003) 10.972 colombianos em busca de refúgio. O numero é maior do que a soma dos três anos anteriores, quando 10.258 atravessaram a fronteira em direção ao Equador. Estimativas extra-oficiais, no entanto, calculam em mais de 25 mil os que chegaram apenas neste ano. Em guerra civil há quarenta anos, a Colômbia, considerado o país mais violento da América Latina, viu o conflito se intensificar com a política de linha dura de Uribe, que assumiu em agosto de 2002 prometendo combater sem trégua os grupos armados ilegais no país. O Exército recebe uma grande ajuda financeira via Plano Colômbia, programa militar e econômico financiado em parte pelos EUA que combate o narcotráfico e os grupos armados do pais. A reportagem da Folha acompanhou durante dois dias o trabalho do Comitê Pró-Refugiados em Quito, dirigido pela irmã paulista Inês Faccioli, que está em Quito há pouco mais de um ano. O comitê é uma parceira entre o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) e a Igreja Católica. São sete postos espalhados para receber os colombianos, que atravessam um longo e difícil processo burocrático para obter o visto de refugiado, cuja exigência inclui a averiguação da veracidade dos dramáticos relatos. No Equador, os colombianos enfrentam um mercado de trabalho restrito e se sujeitam a trabalhos clandestinos em troca de salários miseráveis enquanto não conseguem o visto de refugiado. Os refugiados também têm sido acusados de aumentar as taxas de violência no país. Em outubro, o presidente do Equador, Lucio Gutierrez, disse que, de acordo com as estatísticas policiais, os criminosos presos no país "são na maioria colombianos". A acusação é negada pelos refugiados, que dizem estar justamente fugindo dos criminosos. "Para eles, os colombianos são traficantes, guerrilheiros ou sequestradores, e as mulheres, prostitutas", disse à Folha de São Paulo uma refugiada. O Governo equatoriano também afirma não ter dinheiro para atender aos refugiados. Apesar das centenas de milhares de dólares enviadas pelos EUA, o Plano Colômbia não prevê nenhuma verba para atender aos refugiados no Equador. Violência e medo "A violência é generalizada na Colômbia", afirma Faccioli. "De uma maneira geral, chegam homens em idade produtiva e famílias com um dos pais. Muitos deles estão traumatizados e precisam de atendimento psicológico." "Os relatos estão cada vez mais fortes e violentos", disse uma das três advogadas encarregadas de recolher os depoimentos dos recém-chegados, que pediu para não ter o nome publicado. Segundo ela, os paramilitares de direita são os responsáveis pelas histórias mais dramáticas, seguidos pela guerrilha terrorista de esquerda das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e pelo Exército colombiano. "O narcotráfico está ao redor de todos esses grupos", ressalta. Os refugiados apontam quatros motivos para fugir: recrutamento forçado de crianças e adolescentes pelos paramilitares e pelas FARC, violência contra mulheres, deserções e conquista de regiões antes ocupadas pela guerrilha, o que faz com que os moradores dessas áreas sejam vistos como colaboradores ou informantes. "Enquanto apenas um grupo controla uma determinada região, não há problema", disse um funcionário do ACNUR em Quito, que também pediu para não ser identificado. "Mas o fato de ter vivido cinco anos em uma vila guerrilheira seguramente já transforma alguém em suspeito para o Exército e os paramilitares", explicou. Segundo esse funcionário, a situação é mais dramática na região de fronteira, para onde viaja constantemente. "Há povoados que, em um dia, passam de 500 para 1.500 moradores." Houve até um caso em que uma aldeia inteira de índios foi expulsa pelos paramilitares. No Equador, eles só fizeram um pedido, segundo esse funcionário do ACNUR: exigiram um rio. |