Folha de São Paulo, 1 - III - 2004

Ilhas Marshall pedem indenização para os EUA
por testes nucleares

da France Presse, em Majuro

Cinquenta anos depois de ter servido como polígono de testes para a mais importante bomba de hidrogênio americana, as Ilhas Marshall, situadas no centro do Oceano Pacífico, estão reclamando dos Estados Unidos que assumam sua responsabilidade e as indenize de maneira substancial por danos sofridos.

As bandeiras se encontravam a meio mastro nesta segunda-feira nas Ilhas Marshall pelo aniversário de cinquenta anos em que os Estados Unidos fizeram explodir no atol de Bikini a bomba que foi batizada de Bravo.

Atualmente, só se pode ir ao atol durante um período limitado do ano e as colheitas continuam proibidas para o consumo por causa da radioatividade.

"Para nossa população, o dia 1 de março de 1954 é o momento que define a História do mundo", declarou o prefeito de Rongelap, James Matayoshi, cujo atol foi coberto por uma nuvem radioativa depois da explosão.

"Em uma época em que os Estados Unidos gastam milhões de dólares para estudar a limpeza das instalações de produção de armas nucleares e para fazer do mundo um lugar mais seguro, Washington tem a obrigação moral e jurídica de resolver o problema das repercussões radioativas de seus testes nas Marshall", frisou.

Além da Bravo, os Estados Unidos testaram 67 bombas nucleares no arquipélago -um rosário de 1.200 ilhas que somam apenas 187 km2 de terras, ao norte do equador.

Bravo foi a bomba mais potente, com quinze megatoneladas, ou seja, quase mil vezes a bomba de Hiroshima.

Para comemorar este triste aniversário, uma guarda de honra da polícia liderou um cortejo composto por sobreviventes do pesadelo nuclear, militantes antinucleares, religiosos e estudantes, que desfilaram pela principal rua da capital.

O presidente Kessai Note avaliou que os US$ 270 milhões concedidos em termos de compensação financeira pelos Estados Unidos dentro de um acordo que caducou recentemente não são suficientes e pediu ao Governo americano que responda a uma nova petição de US$ dois bilhões extras.

A embaixadora dos Estados Unidos nas Ilhas Marshall, Greta Morris, deu ênfase à "enorme contribuição das Ilhas Marshall para a Guerra Fria".

Morris classificou de acidentais as repercussões radioativas da Bravo e expressou o profundo pesar de seu Governo.

Em 2002, a quantia concedida por Washington às Ilhas Marshall chegou a US$ 203 milhões, fazendo do arquipélago "um dos mais importantes beneficiários por habitante da ajuda americana", segundo a definição oficial.