Folha de São Paulo, 19 - VIII - 2004

Irã ameaça seus "inimigos"
com ataque preventivo

LAURENT LOZANO, da France Presse, em Teerã

O Irã se lançou em uma batalha verbal crescente contra os Estados Unidos e Israel, advertindo-os que a partir de agora a República islâmica pode tomar a iniciativa e atacar seus "inimigos", seja aonde for.

"Não ficaremos com os braços cruzados esperando que os outros façam o que quiserem conosco. Alguns comandos militares iranianos estão convencidos de que os ataques preventivos dos quais falam os americanos não são um monopólio americano", advertiu ontem o ministro da Defesa, almirante Ali Chamjani, em declarações à televisão Al Jazira.

É a primeira vez em muito tempo que o Irã menciona publicamente a possibilidade de antecipar-se a seus adversários. Há algumas semanas era mais questão da eventualidade de Israel lançar ataques preventivos contra as instalações nucleares iranianas, com ou sem o apoio dos EUA.

A aviação israelense já atuou assim no dia 7 de junho de 1981 contra as instalações nucleares iraquianas de Osirak, fato condenado então pelos Estados Unidos.

Um comandante dos Guardiães da Revolução, ponta de lança do regime islâmico, já havia detalhado na semana passada o que poderia ser uma resposta iraniana.

"Se Israel disparar um único míssil contra a central nuclear de Buchehr, pode esquecer para sempre o centro nuclear de Dimona, onde produz e armazena suas bombas atômicas", disse o general Mohamed Baqer Zolqadr.

Por sua parte, o almirante Chamjani foi mais explícito, assinalando os riscos que seu adversário corria.

"Os americanos não são a única força presente na região, pois nós também estamos presentes, de Jost a Kandahar no Afeganistão, e também somos capazes de estar presentes no Iraque", disse.

As forças americanas mobilizadas no Oriente Médio podem tornar-se "reféns" dos iranianos, ameaçou.

Por razões operacionais e políticas, Israel é "incapaz de realizar uma operação militar sem o apoio americano", declarou o almirante Chamjani.