Folha de São Paulo, 14 - IX - 2004

Com fim de veto a armas,
Taurus lança campanha nos EUA

PAULO CABRAL - da BBC Brasil, em Washington

Com o fim da lei que bania a venda para civis de "armas de ataque" nos Estados Unidos, a filial americana da empresa brasileira Forjas Taurus anunciou que vai voltar a disponibilizar esse tipo de produto no mercado americano.

A Taurus disse, por exemplo, que vai voltar a vender nos Estados Unidos pentes com mais de dez balas para suas pistolas, algo que estava proibido.

A venda de armamentos pesados estava banida desde 1994, por uma decisão do então presidente Bill Clinton. A lei perdeu efeito na segunda-feira e não foi renovada.

Quase toda a exportação brasileira de armas para os americanos é feita pela Taurus, que não revela números sobre suas vendas no país.

No entanto, dados do Departamento de Comércio dos Estados Unidos mostram que, entre janeiro e julho deste ano, os Estados Unidos importaram US$ 19,4 milhões em pistolas brasileiras.

O Brasil foi o segundo maior fornecedor, depois da Áustria, que vendeu US$ 36,3 milhões em pistolas aos americanos.

Slogan

Para vender seus novos produtos a empresa escolheu o slogan "O fim de dez anos só com dez balas!". Os novos pentes terão capacidade para até dezassete projéteis.

Apesar disso, a empresa, assim como outras companhias do setor, não esperam um grande impacto nas vendas.

"Se houver algum impacto nas vendas vai ser mínimo. Estamos só recolocando a venda produtos que já oferecíamos antes da lei", disse o vice-presidente executivo da Taurus International, com sede em Miami, Robert Morrison.

O executivo diz que a empresa tem um "bom negócio" nos Estados Unidos e que não prevê grandes flutuações no futuro próximo.

Outro fabricante, a ArmaLite, já vinha vendendo rifles banidos antes do fim da restrição e deve agora começar a entregá-los aos consumidores que os encomendaram.

"Estas eram armas que já vendiam pouco antes do veto e vão continuar vendendo pouco agora", afirma Andrew Molehan, diretor-executivo da Associação dos Varejistas Profissionais de Armas dos Estados Unidos -uma organização que congrega cerca de cinco mil comerciantes.

Lobby da arma

A campanha pelo fim do veto às armas de assalto não foi feita diretamente pelos fabricantes, mas principalmente pelos fortes grupos de usuários de armas -que têm fortes laços com a indústria.

A Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) é a principal organização americana de defesa do direito a se ter armas, consagrada na Constituição Americana.

O vice-presidente executivo da entidade, Wayne La Pierre, passou o dia dando entrevistas às TVs reafirmando que a solução é punir os crimes cometidos com armas e não criminalizar a posse delas.

As TV americanas também deram muito destaque à empresa ArmaLite. "Alguns clientes temem que o veto acabe voltando rapidamente e não querem perder a oportunidade de comprar a arma", explica a página na internet da companhia.

No entanto, em entrevistas na TV, o presidente da empresa, Mark Westrom, disse que espera pouco impacto nas vendas por causa da mudança na lei e que a empresa recebeu "poucas encomendas para os modelos 'pré-veto'".

A porta-voz do Programa Brady de Controle de Armas -uma das principais organizações americanas a defender leis mais restritivas - Amy Ehleres, diz que os partidários do veto vão continuar a luta para que ele volte a vigorar.

"Há duas propostas de lei na Câmara de Representantes para um veto definitivo a estas armas", disse ela. "Vamos continuar chamando a atenção para esta discussão, porque as pesquisas mostram que a maioria das pessoas nos Estados Unidos é favorável à proibição."