Folha de São Paulo, 16 - IX - 2004

EUA criticam sauditas por repressão religiosa

LUCIANA COELHO - Nova York

Os Estados Unidos anunciaram ontem a inclusão de um de seus principais aliados políticos e econômicos, a Arábia Saudita, numa lista de oito países que causam "preocupação particular" ao violar gravemente a liberdade religiosa e se declararam "decepcionados".

"Mas isso não muda nossa cooperação em outras áreas", disse o embaixador John Hanford, titular do Gabinete para Liberdade Religiosa do Departamento de Estado.

"O Governo saudita mantém uma política de uniformização religiosa via Estado, e muitos são reprimidos, maltratados, presos e deportados por causa de suas práticas religiosas", disse Hanford, numa rara menção americana à falta de liberdade em seu aliado.

"Não falo por meu antecessor, mas, quando tomei a decisão [de incluir a Arábia Saudita na lista], sabia que era uma questão delicada. Passamos meu primeiro ano no cargo tentando contatos diplomáticos e nos decepcionamos", declarou o embaixador, que está no cargo há dois anos, ao ser indagado por que só agora o país passou a fazer parte da lista.

O Governo saudita adota o wahhabismo como religião do Estado -uma das mais radicais linhas do islamismo- e coíbe a prática de outras religiões e de outras vertentes muçulmanas.

Hanford anunciou também a inclusão do Vietnã e da Eritréia na lista, que já citava a China, a Coréia do Norte, o Irã, o Sudão e Mianmar.

O Iraque, agora sem o ditador Saddam Hussein, deixou de ser mencionado.

A apresentação marca o lançamento do sexto relatório sobre liberdade religiosa no mundo, um documento que compila informações sobre 196 países e regiões com o intuito de nortear iniciativas diplomáticas para pressionar Governos que violam as práticas.

Desde que o documento passou a ser compilado, segundo Hanford, algumas melhorias foram notadas. "A própria Arábia Saudita começou a abrir um diálogo com a minoria xiita", afirmou.

Hanford também mencionou a França, citando o veto ao uso do véu feminino islâmico em escolas públicas. "Acreditamos que as muçulmanas, contanto que não imponham uma ameaça ou provocação, como é o caso, têm o total direito de usarem o véu."