Folha de São Paulo, 17 - V - 2006

Ex-ditador uruguaio pode ser extraditado à Argentina

da Ansa, em Montevidéu

O ex-ditador Juan María Bordaberry e seu chanceler, Juan Carlos Blanco, serão os primeiros cidadãos uruguaios convocados pelo juiz argentino Daniel Rafecas, que investiga quatro assassinatos políticos ocorridos em 1976 em Buenos Aires.

Rafecas é responsável pelo caso das mortes do ex-senador Zelmar Michelini, da Frente Ampla, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Héctor Gutiérrez Ruiz, do Partido Blanco, conservador, e os militantes do Movimento de Liberação Nacional (MLN-Tupamaros) Rosario Barredo e William Whitelaw, cujos corpos foram encontrados no dia 20 de maio de 1976 em uma rua da capital argentina, onde estavam refugiados.

A advogada uruguaia das vítimas, Hebe Martínez Burlé, disse nesta quarta-feira que Rafecas pedirá as extradições de Bordaberry e Blanco.

Documentos encontrados recentemente na Chancelaria uruguaia demonstram que os serviços de inteligência realizaram perseguições de uruguaios exilados na Argentina quando Blanco era ministro das Relações Exteriores do Governo de Bordaberry.

No último dia 29 de março um tribunal de apelações do Uruguai revogou uma sentença anterior e reabriu a investigação pelos assassinatos de Michelini, Gutiérrez Ruiz, Barredo e Whitelaw e determinou que não prescreveram os crimes que envolvem o ex-ditador Bordaberry e seu chanceler Blanco.

Martínez Burlé explicou que os casos acompanhados paralelamente pelas justiças do Uruguai e Argentina continuarão seu curso e deverão ser decididos em Montevidéu se o pedido de extradição de Rafecas chegar antes de que Bordaberry e Blanco sejam julgados em seu país.

A advogada prevê que o processo argentino pode ser mais rápido que o uruguaio, pois pediu a Rafecas que desistisse de todos os testemunhos que havia solicitado, com exceção do ex-legislador uruguaio Alberto Zumarán e do ex-presidente Julio María Sanguinetti (1985-1989 e 1995-1999).

Além de Bordaberry e Blanco, a Justiça argentina pode pedir a extradição de vários militares uruguaios supostamente envolvidos nos crimes do Operação Condor -ação secreta das ditaduras militares sul-americanas na década de 70 para eliminar seus opositores, que teria provocado desaparecimentos na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.

No começo deste mês, o juiz argentino Guillermo Montenegro pediu a extradição dos oficiais em reserva do Exército uruguaio José Nino Gavazzo, Jorge Silveira, Ernesto Rama, Gilberto Vázquez e José Arab, e do ex-policial Ricardo Medina, por sua participação em vários episódios.

Bordaberry, do Partido Colorado, foi escolhido presidente em eleições democráticas e assumiu o cargo em 1972, mas no dia 27 de junho de 1973 assinou um decreto de dissolução das Câmaras Legislativas e iniciou uma política funcional sob comando de militares, que finalmente o expulsaram em 1976.